"Melquesedec vinha do futuro. Tinha uma calma tibetana, um olhar de peixe, um cheiro de gato morto diluído em terebintina e a pele e o cabelo secos assim, como palha, devido aos muitos anos de contato com o pó de pedra das esculturas. Era um artista peregrino com um ego de dimensões épicas que lhe transformara em um sujeito um tanto remoso. Nascera em Igarassu e desde a infância se inseriu na farândola por influência do pai, o indômito Roberto Carlos, o afamado engolidor de fogo do Reino. Já por influência do destino… Bem o destino jogou sobre ele uma vida peregrina, com o peso ancestral da ausência de raízes e uma alma apátida. Era descuidado com tudo afora a arte, de forma que, olhando-o de longe, parecia um molambo carregando outros, causa que, aonde quer que fosse, arrastava telas sebosas e os cobertores esfarrapados com que se cobria e, às vezes, extravasava a vertente infinita de sua maginação pintando até não conseguir mais. Na verdade, era um artista oportuno sobrevivendo aos trancos e se deixando levar pelo vento impreciso da entidade confusa a que chamava de inspiração. Como tinha um estilo anacrônico, usualmente vendia pouco. Ninguém entendia a loucura de sua arte, a confusão de cores e formas que sobressaía tanto nos quadros quanto nas esculturas. De forma que a dimensão de seu ego tinha a serventia de não lhe deixar amolecer o dom e a certeza de ser um gênio. Por isso um dia condenou a própria existência social, fechou-se em si mesmo como um marisco, para pintar e esculpir em paz, e só se abriu anos depois, quando se deparou, na igreja, com a beleza incandescente e perturbadora da princesa Kaline."
Trecho do Livro Pretendido
Um comentário:
Tenho a impressão de conhecer esse pintor de algum lugar... Mais apresentável, claro!
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